quinta-feira, 9 de maio de 2013

Rivalidades Totêmicas Ludopédicas em tempos de Facebook


Vai tirar sarro do time que perdeu na página social? Pois saiba que a vingança será maligna, fria e crua. Pode esperar. A tua hora vai chegar.

Por Edu Petta






Hoje levamos a comunicação no bolso. Em um portátil, temos câmeras e vídeos para retransmitir ao mundo todo em um cibersegundo o que vemos e pior, pensamos, ou não pensamos. 

Vivemos na velocidade da luz. Mas nem sempre foi assim. No princípio era o verbo, já dizia o Upanishad, o mais antigo relato escrito do homem. E era pela palavra que se descreviam os acontecimentos, passando de geração para geração o conhecimento e a história, talvez em volta de uma fogueira, olhando estrelas, quando ainda se podia mirar as estrelas. 

Também havia a imagem e não se pode precisar, se ela precedeu as palavras, afinal lá se vão 160 mil anos desde que na Etiópia surgiu o Homo sapiens sapiens, o homem de Cro-Magnon, cuja existência, acreditam alguns ambientalistas mais pessimistas, pode estar chegando ao fim. 

Estive recentemente na região do Périgueux, hoje sob a bandeira da França, onde dizem os arqueólogos, o homem primeiro se sedentarizou na Europa, vindo provavelmente do Oriente, há 20 mil anos. Ali, nas paredes da caverna de Rouffignac, pude apreciar alguns dos mais primitivos desenhos resgatados da história. Datam de 13 mil anos e mostram imagens de animais, muito deles mamutes, o que nos dá um duplo enigma: se ainda havia mamutes vivos nessa época, ou se era apenas a lembrança deles projetada. Em muitos outros desenhos em cavernas pelo mundo afora aparecem cenas do homem caçando animais como cervos e mamutes. Também sobre essas pioneiras imagens não há consenso em afirmar se eram relatos de aventuras passadas, ou animais que desejavam caçar. 

A imagem prosseguiu evoluindo com o ser humano na mão de pintores como Leonardo Da Vinci, ao descobrir os segredos da anatomia humana dissecando cadávares, passou pelo realismo maldito de Caravaggio e suas perspectivas que fizeram o iluminismo, avançaram a outras artes com a revolução industrial, e passaram a ser transmitidas como culturas de massa no pós-gutemberg, com o daguerreótipo, a televisão, as transmissões via satélite, a fibra ótica, até chegar nesses tempos de internet banda larga e das redes sociais do fuckenberg. Tempos em que é possível acessar ao colega com um clique.

Lembrei disso na madrugada de ontem, ao perceber como a rivalidade futebolística, a se dividir em clãs totêmicos nos dias atuais, ultrapassa a gozação do botequim do dia seguinte, do churrasquinho comunitário. Antes, para se gozar um colega era preciso o contato corporal, os olhos nos olhos e o chopinho amigo em cima da mesa. Aos mais íntimos, um telefonema, a voz, que após sacanear o colega, acabava por consolá-lo.

Hoje, ao simples clique do cérebro, o primado lúdico-guerreiro digita as palavras com unhas de tamanduá no teclado mirim, agindo duas vezes antes de pensar. E lá se vão pelo ciberespaço as suas mensagens de guerra, os gritos de vitória, os urros e ataques aos rivais. São mensagens sem suor, sem sangue, sem voz, sem retinas, mas não são palavras ao vento. E tão rápido quanto vão, elas voltam, na ação ou na reação do pensamento, do tantum devolutum quantum apelatum, em bom latim.

Fazer chacota do sofrimento alheio no futebol, essa hipnose coletiva cíclica como a vida, e incerta como a vida, é lançar a si próprio a chacota do futuro.

Tudo bem que o ganhar traga essa sensação de completude, ao contrário da derrota, que carrega a realidade, o sentimento de vazio, mas na fortuna não se pode confiar. Isso é sabedoria desde os gregos, já gravada em mármore no solo da igreja de Siena, na magnífica duomo da rival toscana de Firenze, na Itália, no tempo em que a igreja usava a imagem para contar histórias. Lá está representada a roda da fortuna, onde o de cima logo descerá, num contínuo movimento. No mesmo quadro, em outro desenho, um homem de pé se equilibra na fortuna. Ou tenta, pois um de seus pés está apoiado no cais, seguro, enquanto o outro toca uma flutuante canoa, que a qualquer tempo pode deslizar para o oceano atlântico, derrubando o homem e a sua sorte.
Confiar na fortuna do momento para sacanear ao próximo é temerário. Como bem escreve José Wisnik, essa provocação está “submetida à lógica que cerca o jogo, sujeita ao princípio da reversibilidade, onde circula de modo suscetível a mudar de sentido e a diluir sua unilateralidade numa troca ritual. Uma senha ambivalente, teatralmente truculenta e lúdica de conflitos e realidades”. Feito por provocações as vezes bem-humoradas, por outro violentas, onde se fere uma paixão, como se cortasse o ópio a um viciado, que não obstante sofrer, ainda é perseguido pelos pares nesse sofrer.

Se não perdermos a ternura, todo esse bairrismo, esse fanatismo, esse ativismo irracional, o desprezo pela inteligência ludopédica do colega, essa chacota à boa ou à má fortuna alheia faz parte da nossa amizade. É um fio que liga as nossas vidas desde a infância universitária, até a nossa infância adulta.

Mas não podemos ultrapassar o limite de cortar essa cumplicidade da bola que nos une sob pena de cortarmos assim a nós mesmos. Onde mora esse limite?

Não sei, não estava escrito em mármore em nenhuma catedral nem caverna que visitei recentemente. Nem em livros. E se mora no bom-senso ou na ética, então sei menos ainda, pois cada vez mais os seres humanos menos se entendem nessas matérias.

Apenas digo. Meus queridos: vamos exorcizar os fantasmas e fazer desse ritual de choques, a continuidade do fortalecimento dos nossos laços comunitários, em reciprocidade festiva, sem nos afetar pelo tempo das imagens que ora vivemos. 

Continuemos amigos rivais e guerreiros, sabendo que não é possível a palmeirenses existir sem suscitar por dentro a existência de corintianos e são paulinos, pois o rival cuja afirmação me nega, no fundo me afirma.

domingo, 27 de março de 2011

O Real Madri é prosa. O Barça é poesia.


O Real Madri é prosa. O Barça é poesia. por Eduardo Petta



- Acorda Edu. Acorda.


- Ahn?


- Assim como é que você vai escrever sobre o jogo.


O cineasta italiano Pier Paolo Pasolini, escreveu em 1971, logo após a seleção canarinha encantar o mundo e trazer a Jules Rimet para casa, que o futebol é uma linguagem, onde é possível buscar analogias entre o estilo de discurso de cada equipe.


Lembrei disso assim que a minha digníssima patroa me tirou dos braços de Morfeu para me devolver ao Santiago Barnabé, onde o Real Madri encarava o Lyon pelas oitavas da Champions League.


Foi mais ou menos no minuto 60 que minha mulher me acordou no sofá, depois que adormeci no intervalo.


Em que pese o vinho do almoço e a sonolência da narração da tevê portuguesa, apaguei é porque o jogo estava chato mesmo.


A prosa dos blancos me cansou. Mesmo que seus solistas tenham feito sonetos de pura arte, como o brazuca Marcelo aos 30, o gaulês Benzema, aos 64 e o hermanito Di Maria, aos 75, implacando os 3x0 finais e a vaga em cima do tedioso time francês, a monotonia sonífera da partida foi gritante.


O Real com o seu ferrolho armado por Mourinho prendeu na teia o amedontrado ex-time de Juninho Pernambucano. Na hora de escrever, a bola da mente me levou em viagem para o sul da Espanha, para a Catalunha, para ver a linguagem poética do Barcelona em campo.


Uma semana antes, no mesmo sofá, contra os arsenalistas de Londres, vi-os desfilar o fluxo contínuo de sua cantiga de versos viscerais. Os passes eram de pura alegoria barroca, futebol anárquico, não linear, cheio de hipérboles e parábolas imprevisíveis, como no gol de Messi, o primeiro, o do chapeuzinho com um toque delicado no balon. A esfera girou e parou a meia altura. O goleiro do Arsenal não pode alcançá-la, a torcida prendeu a respiração, foi como se por centésimos de segundo o mundo congelasse, até ela perder a gravidade, deitar no solo ainda a girar, e no desapertar do pause, receber o totózinho de Messi para morrer no fundo do filó e completar o seu hai-kai.


A cada peleja, como fosse o estilo ácido de Elza Proud a tecer linhas, o esquadrão de Pep Guardiola conduz a sua narrativa. Acelera, breca, respira, prensa e pensa o jogo, mas segura o mistério e confunde a lógica da próxima página. E a cada folhear, a beleza do novo, a utilidade do estético se anuncia.


A conversa do seu antípoda Real Madri é totalmente oposta (e me perdoe o pleonasmo). Os merengues são um espelho do seu treinador – a vitória a qualquer custo. Sua trilha é percorrida a machadadas na floresta escura (a maior parte delas desferidas pelo lenhador de canelas, Pepe). Uma prosa feroz que abre poucas clareiras de tons poéticos, quando seus craques iludem a lógica cartesiana. É um jogo centralizador, metódico, sem sal, cirúrgico.



O Barça é a festa plurilíngüe de sua cidade. O Madri é o desenho racional da sua sintaxe branca, da matemática cerebral de Mourinho, uma obra fechada ao leitor, com muito pouca fantasia a oferecer. O Barça é obra aberta e a todo o instante, com um passe milimétrico de Xavi, Iniesta, Messi e companhia, aproxima o leitor do gol.



Nos próximos dois meses, Mourinho e Pep irão se defrontar provavelmente quatro vezes em busca de seus sonhos. Um pela Liga, outro na final da Copa do Rei e, tudo indica, numa épica semi-final da Champions League. E não se iluda o leitor. A prosa dos merengues pode ser o pesadelo, o cisne negro da noite blaugrana. Mourinho e seus comandados farão de tudo para serem os monstros do sono da razão de Goya na vida do Barcelona, capaz de fazer derretida no tempo, toda a sua poesia, como numa tela de Dalí. Por Eduardo Petta

terça-feira, 15 de março de 2011

Tristes Bávaros (Bayern 2x3 Inter)




Os milaneses haviam sido feridos em casa pelos bávaros. Uma lança a zero no monumental San Siro, falha de Julio Cesar no crepúsculo do embate. Hoje, vestiram suas armaduras pretas e azuis e partiram em marcha pelos Alpes. Atravessaram as montanhas e entraram num estádio vestido de vermelho e branco, perfilando-se para a peleja. Vi ali rostos da Copa. Quase não vi italianos. A bola rola e logo o rosto da África camaronesa coloca o Inter na frente em posição duvidosa. É Eto’o quem dá a sua risada. Um caldeirão se cala, um Bayern agiganta-se. Joga o fino da bola, de pé em pé como se fosse samba, bossa e logo chega ao empate em nova falha de Julio César. As pernas milanesas tremem. E o Bayern vira o jogo com música de Miller, o garoto revelação da Copa 2010. Ele, Ribery, Robben, Schweinsteiger e Mario Gomez praticam o futebol arte. Tratam o objeto de couro com raro talento e bombardeiam a armada da Inter. Julio César salva milagrosamente uma, duas, três vezes e se redime. Gomez recebe na cara do gol, dá um leve toque, a bola vai entrando, mas o zagueiro italiano consegue num carrinho mágico, deslizar por metros no gramado e tirar a bola a poucos milímetros dessa ultrapassar a linha fatal. Mas antes que a redondinha avance pelo gramado em alívio, o garoto Miller estica os pés de polvo e a devolve rumo a meta de Julio Cesar. A esfera a direção, o ângulo e a tangente perfeitas da equação, vai entrar...A torcida prepara o pulo de gol, mas ela resvala na trave, corre pela linha e teimosamente não entra. Na jogada seguinte, Robery avança cara-a-cara com Julio César, que defende a queima roupa. Final do primeiro tempo. O Bayern ensaiou uma goleada, massacrou, mas o jogo ficou no 2x1. A fanática galera aplaude e delira em Munique. Começa a segunda etapa. E os milaneses distribuem bordoadas, pauladas e sapatadas. Um a um, os jogadores vermelhos e brancos vão sendo minados e os azuis e pretos amarelados. Crescem os homens da Bota. Minuto 60. Leonardo coloca Philipe Coutinho em campo. Ele avança, cruza a bola para Eto’o na entrada da área. Eto’o ajeita de primeira para Sneidjer que solta a bomba. O míssil entra no canto e é gol. A torcida do Bayer canta mais alto ainda. Mas o galo de seu time não parece mais funcionar. Nitidamente cansado, o Bayer limita-se a defender. A Inter cresce na partida, vai para cima, insiste. Último minuto de jogo. A bola é lançada para Eto’o na área. O zagueiro Breno se antecipa, mas perde no drible de corpo para o camisa 9. Ele domina. Ganha de Breno na corrida, ameaça chutar, leva mais um, ameaça chutar novamente, mas então rola macia a bola para trás e ela sai pedindo me chuta, me chuta. Pandev chuta, ou melhor, coloca, no ângulo de Kraft, sem defesa. Lúcio, que errou quase tudo no primeiro tempo vira um monstro, urra, bate no peito, franze suas enormes sobrancelhas, abraça Maicon, Cambiasso. Nunca antes o Bayern fora derrotado após vencer fora na Champions. A atual campeã européia, sem Mourinho e com Leonardo a sorrir, já pode voltar para casa, para Milão, com a medalha da glória estufada no peito e a vaga nas quartas. No replay da última final, tristes bávaros choram por último e choram pior. 3x2.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

É tão difícil fazer a roda girar?
No charme da Liga Europa, lições para a pobreza mental da Sul-Americana. Não é preciso reinventar a roda.





Hoje entram em campo, 28 equipes européias para decidir a partida de volta e a passagem para as oitavas de final da Liga Europa, uma espécie de segunda divisão interclubes do Velho Mundo. Ontem foram dois jogos. Um deles, Porto e Sevilha, acompanhei de perto no belíssimo estádio do Dragão, no coração da ainda mais bela cidade do Porto. O Porto perdeu de 1x0, (gol de Luís Fabiano para o time da Andaluzia), mas como havia vencido a partida de ida por 2x1, classificou-se e agora enfrentará o CSKA de Moscou de Wagner Love - parada indigesta. A peleja teve início às 17h, e o estádio, com capacidade para 60 mil pessoas, estava completamente lotado. Uma cena que deve se repetir nessa tarde e noite de quinta-feira, quando desfilarão pelos gramados times tradicionais como o Manchester City, Liverpool, Ajax, PSV, Benfica, Sporting, Napoli, Villarreal, PSG, Beskitas, Glasgow Rangers, Dínamo de Kiev e Stuttgart, entre outros.
Se essa realidade fosse transportada para a América do Sul, todos esses times estariam estacionados no meio de semana, assistindo de longe os gigantes, como Real Madri, Barcelona, Manchester United e companhia, enfrentarem-se pela Liga dos Campeões. Ou restrito a torneios menores em seus países. Ao invés disso movimentam milhões de euros e espectadores em duelos além fronteiras.
Infelizmente, a mentalidade tacanha e do tamanho de um cérebro de ervilha dos mafiosos que governam a Sulamericana e “todas” as suas mafiosas confederações, não pensam assim. O primeiro semestre é dedicado a Libertadores da América e o segundo a Copa Sulamericana, torneio que só passou a ganhar alguma importância, no ano passado, quando resolveram, com um regulamento pra lá de confuso, dar uma vaga ao campeão para a Libertadores do ano seguinte.
Não é questão de babar ovo para os europeus. Mas ver o que dá certo lá fora e adaptar por aqui. Seria muito simples espalhar a Libertadores e a Copa Sul-Americana pelo ano inteiro, numa semana de data internacional. Se fosse assim, enquanto Inter, Flu, Santos e Cruzeiro, nossos melhores do ano passado, medissem forças com Estudiantes, Nacional, etc, veríamos jogar pela Sulamericana, equipes como Boca Junior, River Plate, São Paulo, Palmeiras, Flamengo, Vasco e até o desclassificado Corinthians (é assim na UEFA). O que você preferia. Ver o seu time enfrentar o ASA de Arapiraca, ou jogar na Bombonera com o Boca?
Se o calendário fosse assim, ainda abriria espaço para que a também charmosa Copa do Brasil fosse jogada o ano inteiro e por todos os grandes clubes brasileiros, dando muito mais valor e validade a competição, que no formato atual pune com a exclusão os melhores do ano anterior.
Ninguém aqui quer reinventar a roda. Mas é tão difícil assim de entender?

Por Eduardo Petta

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

De Berlusconi a Gattuso. Itália, um país com a síndorme do Machismo.


De Berlusconi a Gattuso. Itália, um país com a síndorme do Machismo



por Eduardo Petta

Não tem jeito. A bela Itália ainda não escapou ao machismo. Da política ao cinema, do cinema a bola. Seu primeiro-ministro insiste em tratar as mulheres como mero objeto de seu “aparentemente” insaciável desejo sexual. Berlusconi, em pleno século 21, parece um personagem reencarnado dos filmes de Fellini, com a diferença que hoje, as mulheres não parecem mais tolerar esse tipo de comportamento, indo às ruas para protestar junto com seus maridos e namorado com faixas de “Até quando?”. A pergunta ecoou na minha cabeça na noite de terça-feira durante a partida do Milan contra o Tottenham. Em pleno San Siro, os rossoneros esbarraram em seu nervosismo, estampados principalmente na figura do meio-campista Gennaro Gattuso, campeão mundial pela azzura em 2006. Completamente destemperado o jogador distribuiu botinadas desnecessárias, enfiou o dedo na testa do grandalhão Peter Crouch, socou a grama, apertou a garganta e deu uma cabeçada no assistente técnico dos Spurs, Joe Jordan, xingou seu companheiro de time, o francês Flamini e saiu bufando. Em todos seus atos, Gatusso parecia o menino mimado, encarregado de ser o xerife de uma vitória que não vinha, e acabou levando-o ao descontrole. É um machismo secular o italiano, dos tempos do Império Romano, que ainda hoje resvala em toda a Península Ibérica, em países como Portugal e Espanha. Só para ilustrar o fato, vale lembrar que apenas 50% das mulheres italianas estão no mercado de trabalho. A outra cuida da casa, dos filhos e netos, como nos tempos da nona. Nas últimas eleições parlamentares, foram eleitas 188 mulheres de um total de 945 cargos, 19,8% do total, o que coloca o país na 50ª. posição do ranking da participação feminina na política – o último lugar da União Européia. Até mesmo no imaginário mundial, esse machismo italiano ganha vida. No milionário filme publicitário da Nike para Copa de 2010, o zagueiro Canavarro sonhava em ser campeão e ser adulado num programa de auditório cercado de dançarinas gostosas.
Ah, se serve de consolo, no jogo em questão, que foi horrível por sinal, Gattuso foi punido com o amarelo e não joga a partida de volta. E o melhor, o Tottenham ganhou de 1x0, gol do dócil, sensível e gigantesco Peter Crouch.
No dia seguinte, Gattuso pediu desculpas pelo seu dia de fúria. Já Berlusconi, ao melhor estilo Calígula, continua a rir com seus amigos e seguidores dos dias e mais dias de farra e diz. “Tenho mesmo predileção por mulheres jovens e bonitas. O resto é intriga da oposição”. E eu, assim como as mulheres italianas que foram as ruas protestar pergunto: “até quando”?

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Arsenal 2x1 Barcelona. Foi de arrepiar.

Foi de Arrepiar
Arsenal 2x1 Barcelona – Champions League 2010-2011


E com que vontade o amigo acha que vou assistir ao meu Palmeiras contra o não sei quem da Paraíba num gramado sinistro e esburacado depois de ver esse Barcelona e Arsenal no palco de sonho do Emirates Stadium em Londres. A grama parecia o cabelo de uma princesa recém saída do Jaça ou do Beka. E em campo era um craque atrás do outro. Perdeu o jogo. Eu conto, mas assista ao VT. É futebol-arte na veia em pleno século 21. Foi um jogaço, principalmente o primeiro tempo. Aos 10, Fábregas acionou Van Persie que explodiu a bomba na cara de Valdez. Aos 15, Messi recebeu livre na área, deu uma finta de corpo no goleirão Szczesny, um toque de leve e a bola passou tirando tinta da trave. Só dava Barça. Messi de novo fez fila, mas chutou fraco aos 22. O Arsenal respondeu aos 24. Em um contra-ataque fulminante puxado por Walcott, Fábregas cruzou na área, Van Persie subiu com estilo para cabecear, mas Abidal conseguiu cortar no último instante. Na sequência do lance a pelota caiu nos pés de Messi. O baixinho arrancou, passou no meio de dois e colocou a bola entre 4 jogadores do Arsenal para Villa que fuzilou para marcar 1x0. Aos 28, o Barça quase amplia. Dani Alves faz boa jogada, empurra na linha de fundo pra Villa que acha Pedro dentro da área. Pedro resvala na bola, mas Szczesny faz grande defesa, espalmando a bola. Imediatamente o Arsenal puxa o contra-ataque. Walcott enfia para Van Persie que solta a bomba e quase empata. Rapaz, não dá nem pra fazer xixi nesse jogo. Ufa. Dos 30 aos 32 o Barça tocou a bola de pé em pé com Xavi e Iniesta comandando o baile. Conta aí. Devem ter sido mais de 40 passes certos. Aos 37, gol de Messi, mas o juiz anulou. Mandou bem o homem de preto. Aos 40, o jogo deu uma acalmada. Aos 41, um lance me impressionou. Nasri recebeu na linha de fundo, driblou Maxwell, e quando levantou a cabeça já tinha três blaugranas no cangote. Como é que um time consegue ser tão ofensivo e ao mesmo tempo defender tão bem? E terminou o primeiro tempo, de um jogo equilibrado em número de oportunidades, mas com 61 % de posse de bola para os visitantes.
Veio o segundo tempo. Messi perdeu outra chance aos 14. O Barça trancou o Arsenal. Seus jogadores acertam passes de uma linha a outra do campo. É impressionante como parece que futebol é fácil de jogar. Até que aos 78, Clichy lançou Van Persie nas costas de Dani Alves. O camisa dez holandês invadiu a área, Valdez esperou o cruzamento, Van Persie estava sem ângulo para chutar, mas chutou. O chute saiu forte, seco, no canto curto do goleiro, juntinho da trave, tal qual o de Gighia na final de 1950 de Uruguai e Brasil.
A torcida inglesa delirou. Mas o gol acendeu ainda mais o Barça, que se mandou com tudo para o ataque. Para o Arsenal, o empate já estava de bom tamanho e ele se fechou como um arco, para aos 82 disparar como flecha. O ótimo francês Nasri desceu ligeiro pela direita, cortou Keita e cruzou a bola brilhantemente para trás, para a entrada da área, onde o russo Arshavim, que é craque, pegou de primeira no contra-pé de Valdez e virou o jogo. Dois minutos depois, Valdez salvou o terceiro gol nos pés de Arshavim. O Barça ainda se mandou como louco para o empate, sempre pela direita com Dani Alves – o campo parecia inclinado. Perdeu uma, duas, três chances nos pés do jovem goleiro do Arsenal, e fez dele, aos 20 anos, um dos heróis do jogo. O gigante polonês de 1,95m, nascido outro dia, em 1990, não vai dormir esta noite. Nem os torcedores do Arsenal.
A volta no Camp Nou promete. Os gunners estão de parabéns por parar em grande estilo a maravilhosa equipe de Pep Guardiola. Mas fiquei com a impressão de que cutucou a onça com vara curta. Não vou perder este jogo por nada. E você?


Números do jogo (emprestado do Birner –valeu careca)
Posse de bola – Arsenal 40% e Barcelona 60%
Tentativas de chutes em gol – Arsenal 13 e Barcelona 10
Chutes na direção certa – Arsenal 7 e Barcelona 5
Escanteios – Arsenal 4 e Barcelona 1
Impedimentos – Arsenal 3 e Barcelona 8
Faltas – Arsenal 16 e Barcelona 13

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Quero o Fim dos Pontos Corridos. E você?

“Toda a unanimidade é burra” já dizia Nelson Rodrigues, que mesmo sem entender bolhufas de futebol, é ainda hoje dos que melhores transcreveram o imaginário das partidas pela ótica do torcedor. Pois vou contra a unanimidade dos comentaristas da bola, amantes e defensores do campeonato brasileiro por pontos corridos. A cada ano, acho essa fórmula mais insossa, sem sal, chata. Ou um time dispara na frente, ou o “final emocionante” termina com jogos de marmelada, mala branca, preta, cor-de-rosa. Gosto mesmo é dos “mata-mata”. Gosto de ver jogo onde os jogadores dos dois times têm sangue nos olhos, onde a peleja é uma guerra como nos velhos tempos do cálcio Fiorentino ou da pelota maia. Campeonato por pontos corridos é mais justo? Com certeza isso é verdade. Mas vamos deixar essa fórmula para a fria Europa. Nós brasileiros, de sangue quente, queremos o fogo da dança dos jogos com a pimenta do perdeu tá fora. Nós somos a “pátria de chuteiras”. Não precisamos imitar ninguém do velho mundo para parecer melhor.