quinta-feira, 19 de agosto de 2010

O que você faria se fosse Neymar?





Neymar desliga o Playstation e deita na cama. Por sua mente passam milhões de euros, dúvidas e poucos dias para escrever o futuro. Os foles da rainha inglesa lhe acenam o caminho do velho continente. Ele se imagina dando o passe para Drogba fazer o gol do bicampeonato em cima do Manchester, pedalando em cima dos zagueiros do Liverpool ao som de Strawberry Fields Forever, marcando o gol do inédito título da Champions League, que o russo Abramovich sempre sonhou. De terno e gravata recebe a bola de ouro. “Neymar, o melhor do mundo”.

A lua de Santos bate na janela do quarto e ilumina seus troféus: revelação do campeonato paulista 2009, melhor jogador do paulistão 2010, artilheiro da Copa do Brasil 2010 com 11 gols, cinco deles na goleada de 8x1 contra o Guarani. Na parede, fotos: dançando com os meninos da Vila, abraçado como Sundance Kid e Butch Cassidy com seu amigo PH Ganso, carregando o rei Pelé no colo com seu corpo franzino de 1,74m e 57 quilos. Neymar sorri seu sorriso metálico. Tudo passou muito rápido para o menino nascido ao pé da serra do mar em Mogi das Cruzes sob o signo de aquário a 5 de fevereiro de 1992. De tanto jogar pelada nas ruas foi levado ao Santos com 14 anos. Aos 15, tratado como jóia rara, teve o passe segurado em US$ 25 milhões, metade do valor que o Real Madri acabara de desembolsar para levar Robinho, de quem lhe julgavam o sucessor. Em 7 de março de 2009, nem bem completara 17, estreou-se aos profissionais numa partida contra o Oeste. De lá para cá foram 43 gols, 29 só nesse ano, e mais um, especial, o da estréia na seleção brasileira de Mano Menezes, num jogo em que o povo brasileiro recebeu de volta a poesia da bola, perdida na era Dunga.

Neymar abre os jornais. Está em todos, como noticiário ou estrela de publicidade. Mano e Zagalo pedem para ele ficar mais um pouco. Tostão, mestre dos mestres, filosofa sobre o que faria em seu lugar e lhe concede o benefício da dúvida. “A vida não tem regras. Tudo é incerto”. Para o filósofo uruguaio Eduardo Galeano não há como fugir do êxodo. “Este é o itinerário do jogador com boas pernas e boa sorte”. “Mas será agora?” Neymar sabe que a janela européia de contratações fechará a 31 de agosto. O tempo passa depressa. “Haverá outra oportunidade como essa? Devo ir agora, ou disputar a Libertadores com o Santos?” O garoto adormece em dúvidas. Seus sonhos o levam para o nevoeiro londrino. No frio europeu, esquecido no banco do Chelsea é desvalorizado e emprestado para o Blackpool. Caçado em campo, perde a ginga e entristece. Na véspera da Copa do Mundo no Brasil, seu nome desaparece da lista de Mano. Ninguém na imprensa reclama.

Neymar acorda assustado, suando em bicas. Ele ainda está em Santos. Ainda sorri. E ainda é o ídolo de milhões de crianças. Insone, vai à janela olhar o Atlântico. Ainda está do lado de cá. Mas a janela européia está chegando ao fim. Neymar tem 18 anos. E um piscar de olhos para decidir. E você? O que faria em seu lugar?

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Vida Longa ao Ganso

A dez canarinha nunca foi tão leve. E como ela pode pesar. Que o digam Ademir da Guia, Jorge Mendonça, Roberto Dinamite, Neto, Raí, Marcelinho Carioca, Ronaldinho Gaúcho, Alex e tantos outros que sucumbiram à força da mística camisa eternizada por Pelé, Rivelino e Zico. Aliás, desde os tempos do Galinho de Quintino, o manto sagrado não se acomodava tão bem em pele e osso. Pois em sua estréia na seleção principal no amistoso contra os Estados Unidos ela parecia flutuar na carcaça de Paulo Henrique Ganso. O menino de 21 anos levitava pelo gramado como se jogasse uma pelada com os amigos da rua onde nasceu. De seus pés saíam lançamentos longos como o de Gérson, o canhotinha de ouro, elásticos de Rivelino, passes de calcanhar a Sócrates. Em alguns momentos tabelava com Neymar e Robinho, tal qual Pelé e Coutinho. Sua postura ergométrica em campo reluz perfeita. Parece que um parafuso logo abaixo da nuca o impede de olhar para baixo, como fazem os bugres da bola. Cabeça sempre erguida, seu perceber de jogo transcende ao olhar humano: enxerga de costas, de lado e além do horizonte. Quando a bola chega aos seus pés, já sabe de velho o fino trato em dar a ela: acomoda a redondinha suavemente, gruda-a junto ao corpo e como se fosse uma menina, a toca com profundo amor e carinho. Bem cuidada, a bola sabe bem corresponder a essa paixão. E os passes de Ganso navegam em campo pelo rumo projetado, penetrando em espaços inimagináveis, a correr entre as pernas de zagueiros enormes, descrevendo curvas impossíveis, tomando trajetórias que desconcertam os marcadores, assistindo aos companheiros para que se consagrem ao gol. E Ganso também sabe marcar. Não se omite em dar carrinhos e lutar pela bola, mas sem perder a ternura. Também não se esconde do jogo. Está sempre chamando a responsabilidade, fazendo a pelota girar, se apresentando ao companheiro, principalmente quando a tensão da partida chega ao ápice. E o menino Ganso ainda leva em seu repertório os dribles circenses de Garrincha, o Charles Chaplin da bola. Pura alegria, deleite, poesia. Parodiando Fernando Pessoa, ao vê-lo jogar, até as almas mais tristes se tornam menos tristes. E como diria Raul: o Ganso ainda nem começou...

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios

O título desta crônica é uma homenagem ao romance sensual de Marçal Aquino, que o brilhante diretor Beto Brant (Invasor e Crime Delicado) está filmando. Trata-se da história de Cauby, fotógrafo que segue aos rincões da Amazônia brasileira para fotografar prostitutas de garimpo e acaba se apaixonando ao viver uma paixão bizarra e eletrizante com a deliciosa e bipolar mulher do pastor da cidade, Lavínia, interpretada por Camila Pitanga. Lavínia, como “quase” todas as mulheres, tem o humor do mar. Ora embala em águas calmas e pele macia, ora se transforma em maremoto, num turbilhão de hormônios revoltos prestes a explodir feito vulcão. É assim que ela enlouquece Cauby com sua beleza. Um dia, cabelos soltos, é uma puta na cama, cavalgando e ardendo em paixão. No outro, a mulher recatada do pastor, o evangelho debaixo do braço, vestido longo a cobrir tornozelos, golas abotoadas, o corpo frio, o olhar frígido.
Tudo isso para lembrar o romance mais bonito e fofinho da Copa 2010. Lá estavam: o goleiro espanhol Iker Casillas, um monstro debaixo das traves, herói do título e a jornalista princesa Sara Carbonero. No primeiro jogo, derrota por 1x0 para a Suiça, e quis o mundo crucificar esse amor. Casillas teria se distraído com a morena atrás de sua meta (pudera) no momento do gol. Sara então era a mulher fatal, a perdição, a tentação, a Eva com a maçã a acenar para Adão. O paraíso soçobrava. Vieram outros jogos. Casillas salvou a Espanha nas quartas agarrando um pênalti contra o Paraguai batido por Cardoso e outro chute aos pés de Roque Santa Cruz no minuto derradeiro. Veio a final, e nela, a defesa milagrosa com a ponta da chuteira jogando pra escanteio o chute mortal do holandês Robben. A bola saiu de mansinho. Sara sorriu. A Espanha venceu. Casillas era o herói. A história de amor estava salva. Sara não era mais a bruxa, a serpente a empunhar o microfone como se fosse uma naja hipnotizadora. Foi perdoada. Santificada, subiu ao céu e postou-se ao lado de Casillas para a entrevista na boca do túnel dos vestiários. Olhos nos olhos, medalha no peito, Casillas termina a entrevista eternizando um beijo na boca de Sara diante das câmeras. E o mundo todo beijou aquele beijo, sentiu aqueles lindos lábios. E o sabor da notícia não era das piores.

Tudo começou quando eu era menino

Quando eu era menino sonhava em ser jogador de futebol. Também queria ser narrador. Passava horas a jogar botão sozinho narrando os gols. Na época (virada dos anos 70-80) o estilo de narrar que mais me influenciava era o do José Silvério da rádio Jovem Pan. Eu amava quando o jogo ia começar e eles tocavam aquela musiquinha: “eu gosto é de futebol. E os meus amigos...estão no futebol. Futebol é com a Jovem Pan e é lá que eu estou também”. Também gostava de cantar na hora do gol o jingle: “é gol. que felicidade. é gol. e o meu time é a alegria da cidade”. E o Silvério então soletrava a primeira sílaba do nome do jogador algumas vezes para então soltar o nome inteiro, algo como: “Jó, Jó, Jó....Jorginho” e completava “é dele a camisa número 10”. E depois disparava para o goleiro um: “e agora Neneca?” e ligava um som de torcida: “vai buscar” (a voz ecoava). “Tá lá, no fundo da rede de Neneca”. Dava o replay, descrevia o gol e chamava o repórter. “ E aí Vanderlei, o que é que só você viu”. E lá vinha o Vanderlei e o seu olhar de beira de campo, depois o comentarista, e o jogo seguia, os ouvidos grudados no rádio da caravan de papai. Na minha mesa de botão esse mundo era transportado. Tinha sempre na ponta da língua a escalação dos principais times do Brasil (naquela época não mudava tanto) e os que eu não sabia, estavam num fichário do futebol cards, as grandes figurinhas que vinham em pacotinhos de chicletes gigantes. Tive a coleção quase completa, rapelando os meus colegas batendo bafo na saída do colégio São Luís - habilidade adquirida nas horas e horas que esperava minha mãe, sempre atrasada, me buscar. Quando eu era menino, se não estava dormindo, estava pensando (ou jogando) futebol. Foi aliás, assim que aprendi a ler, soletrando as manchetes dos diários esportivos todos os dias no café da manhã. E assim que aprendi a gostar de jornal e um dia virei jornalista. Foi então que aos 40 anos de idade e quinze de profissão, durante a Copa do Mundo de 2010, realizei que era hora de sair do armário. De colocar minha pena pra escrever sobre a bola. Unir essas duas paixões que movem a minha vida. E deixar fluir aquilo que sinto sobre futebol.
Vou adorar dividir este espaço de letras com você que, assim como eu, cresceu gostando de futebol.