Vai tirar sarro do time que perdeu na
página social? Pois saiba que a vingança será maligna, fria e crua. Pode
esperar. A tua hora vai chegar.
Por Edu Petta
Por Edu Petta
Hoje levamos
a comunicação no bolso. Em um portátil, temos câmeras e vídeos para
retransmitir ao mundo todo em um cibersegundo o que vemos e pior, pensamos, ou
não pensamos.
Vivemos na velocidade da luz. Mas nem sempre foi assim. No
princípio era o verbo, já dizia o Upanishad, o mais antigo relato escrito do
homem. E era pela palavra que se descreviam os acontecimentos, passando de
geração para geração o conhecimento e a história, talvez em volta de uma
fogueira, olhando estrelas, quando ainda se podia mirar as estrelas.
Também
havia a imagem e não se pode precisar, se ela precedeu as palavras, afinal lá
se vão 160 mil anos desde que na Etiópia surgiu o Homo sapiens sapiens, o homem
de Cro-Magnon, cuja existência, acreditam alguns ambientalistas mais
pessimistas, pode estar chegando ao fim.
Estive recentemente na região do
Périgueux, hoje sob a bandeira da França, onde dizem os arqueólogos, o homem
primeiro se sedentarizou na Europa, vindo provavelmente do Oriente, há 20 mil
anos. Ali, nas paredes da caverna de Rouffignac, pude apreciar alguns dos mais
primitivos desenhos resgatados da história. Datam de 13 mil anos e mostram imagens
de animais, muito deles mamutes, o que nos dá um duplo enigma: se ainda havia
mamutes vivos nessa época, ou se era apenas a lembrança deles projetada. Em
muitos outros desenhos em cavernas pelo mundo afora aparecem cenas do homem
caçando animais como cervos e mamutes. Também sobre essas pioneiras imagens não
há consenso em afirmar se eram relatos de aventuras passadas, ou animais que
desejavam caçar.
A imagem prosseguiu evoluindo com o ser humano na mão de pintores
como Leonardo Da Vinci, ao descobrir os segredos da anatomia humana dissecando
cadávares, passou pelo realismo maldito de Caravaggio e suas perspectivas que
fizeram o iluminismo, avançaram a outras artes com a revolução industrial, e
passaram a ser transmitidas como culturas de massa no pós-gutemberg, com o
daguerreótipo, a televisão, as transmissões via satélite, a fibra ótica, até
chegar nesses tempos de internet banda larga e das redes sociais do fuckenberg.
Tempos em que é possível acessar ao colega com um clique.
Lembrei
disso na madrugada de ontem, ao perceber como a rivalidade futebolística, a se
dividir em clãs totêmicos nos dias atuais, ultrapassa a gozação do botequim do
dia seguinte, do churrasquinho comunitário. Antes, para se gozar um colega era
preciso o contato corporal, os olhos nos olhos e o chopinho amigo em cima da
mesa. Aos mais íntimos, um telefonema, a voz, que após sacanear o colega,
acabava por consolá-lo.
Hoje, ao
simples clique do cérebro, o primado lúdico-guerreiro digita as palavras com
unhas de tamanduá no teclado mirim, agindo duas vezes antes de pensar. E lá se vão
pelo ciberespaço as suas mensagens de guerra, os gritos de vitória, os urros e ataques
aos rivais. São mensagens sem suor, sem sangue, sem voz, sem retinas, mas não
são palavras ao vento. E tão rápido quanto vão, elas voltam, na ação ou na reação
do pensamento, do tantum devolutum quantum apelatum, em bom latim.
Fazer chacota do sofrimento alheio no
futebol, essa hipnose coletiva cíclica como a vida, e incerta como a vida, é
lançar a si próprio a chacota do futuro.
Tudo bem que
o ganhar traga essa sensação de completude, ao contrário da derrota, que
carrega a realidade, o sentimento de vazio, mas na fortuna não se pode confiar.
Isso é sabedoria desde os gregos, já gravada em mármore no solo da igreja de
Siena, na magnífica duomo da rival toscana de Firenze, na Itália, no tempo em que a igreja usava a imagem para
contar histórias. Lá está representada a roda da fortuna, onde o de cima logo
descerá, num contínuo movimento. No mesmo quadro, em outro desenho, um homem de
pé se equilibra na fortuna. Ou tenta, pois um de seus pés está apoiado no cais,
seguro, enquanto o outro toca uma flutuante canoa, que a qualquer tempo pode
deslizar para o oceano atlântico, derrubando o homem e a sua sorte.
Confiar na
fortuna do momento para sacanear ao próximo é temerário. Como bem escreve José Wisnik,
essa provocação está “submetida à lógica que cerca o jogo, sujeita ao princípio
da reversibilidade, onde circula de modo suscetível a mudar de sentido e a
diluir sua unilateralidade numa troca ritual. Uma senha ambivalente,
teatralmente truculenta e lúdica de conflitos e realidades”. Feito por
provocações as vezes bem-humoradas, por outro violentas, onde se fere uma
paixão, como se cortasse o ópio a um viciado, que não obstante sofrer, ainda é
perseguido pelos pares nesse sofrer.
Se não perdermos a ternura, todo esse bairrismo, esse fanatismo, esse
ativismo irracional, o desprezo pela inteligência ludopédica do colega, essa
chacota à boa ou à má fortuna alheia faz parte da nossa amizade. É um fio que
liga as nossas vidas desde a infância universitária, até a nossa infância
adulta.
Mas não podemos ultrapassar o limite
de cortar essa cumplicidade da bola que nos une sob pena de cortarmos assim a
nós mesmos. Onde mora esse limite?
Não sei, não
estava escrito em mármore em nenhuma catedral nem caverna que visitei
recentemente. Nem em livros. E se mora no bom-senso ou na ética, então sei
menos ainda, pois cada vez mais os seres humanos menos se entendem nessas
matérias.
Apenas digo.
Meus queridos: vamos exorcizar os fantasmas e fazer desse ritual de choques, a
continuidade do fortalecimento dos nossos laços comunitários, em reciprocidade
festiva, sem nos afetar pelo tempo das imagens que ora vivemos.
Continuemos
amigos rivais e guerreiros, sabendo que não é possível a palmeirenses existir
sem suscitar por dentro a existência de corintianos e são paulinos, pois o rival
cuja afirmação me nega, no fundo me afirma.
