O Real Madri é prosa. O Barça é poesia. por Eduardo Petta
- Acorda Edu. Acorda.
- Ahn?
- Assim como é que você vai escrever sobre o jogo.
O cineasta italiano Pier Paolo Pasolini, escreveu em 1971, logo após a seleção canarinha encantar o mundo e trazer a Jules Rimet para casa, que o futebol é uma linguagem, onde é possível buscar analogias entre o estilo de discurso de cada equipe.
Lembrei disso assim que a minha digníssima patroa me tirou dos braços de Morfeu para me devolver ao Santiago Barnabé, onde o Real Madri encarava o Lyon pelas oitavas da Champions League.
Foi mais ou menos no minuto 60 que minha mulher me acordou no sofá, depois que adormeci no intervalo.
Em que pese o vinho do almoço e a sonolência da narração da tevê portuguesa, apaguei é porque o jogo estava chato mesmo.
A prosa dos blancos me cansou. Mesmo que seus solistas tenham feito sonetos de pura arte, como o brazuca Marcelo aos 30, o gaulês Benzema, aos 64 e o hermanito Di Maria, aos 75, implacando os 3x0 finais e a vaga em cima do tedioso time francês, a monotonia sonífera da partida foi gritante.
O Real com o seu ferrolho armado por Mourinho prendeu na teia o amedontrado ex-time de Juninho Pernambucano. Na hora de escrever, a bola da mente me levou em viagem para o sul da Espanha, para a Catalunha, para ver a linguagem poética do Barcelona em campo.
Uma semana antes, no mesmo sofá, contra os arsenalistas de Londres, vi-os desfilar o fluxo contínuo de sua cantiga de versos viscerais. Os passes eram de pura alegoria barroca, futebol anárquico, não linear, cheio de hipérboles e parábolas imprevisíveis, como no gol de Messi, o primeiro, o do chapeuzinho com um toque delicado no balon. A esfera girou e parou a meia altura. O goleiro do Arsenal não pode alcançá-la, a torcida prendeu a respiração, foi como se por centésimos de segundo o mundo congelasse, até ela perder a gravidade, deitar no solo ainda a girar, e no desapertar do pause, receber o totózinho de Messi para morrer no fundo do filó e completar o seu hai-kai.
A cada peleja, como fosse o estilo ácido de Elza Proud a tecer linhas, o esquadrão de Pep Guardiola conduz a sua narrativa. Acelera, breca, respira, prensa e pensa o jogo, mas segura o mistério e confunde a lógica da próxima página. E a cada folhear, a beleza do novo, a utilidade do estético se anuncia.
A conversa do seu antípoda Real Madri é totalmente oposta (e me perdoe o pleonasmo). Os merengues são um espelho do seu treinador – a vitória a qualquer custo. Sua trilha é percorrida a machadadas na floresta escura (a maior parte delas desferidas pelo lenhador de canelas, Pepe). Uma prosa feroz que abre poucas clareiras de tons poéticos, quando seus craques iludem a lógica cartesiana. É um jogo centralizador, metódico, sem sal, cirúrgico.
O Barça é a festa plurilíngüe de sua cidade. O Madri é o desenho racional da sua sintaxe branca, da matemática cerebral de Mourinho, uma obra fechada ao leitor, com muito pouca fantasia a oferecer. O Barça é obra aberta e a todo o instante, com um passe milimétrico de Xavi, Iniesta, Messi e companhia, aproxima o leitor do gol.
Nos próximos dois meses, Mourinho e Pep irão se defrontar provavelmente quatro vezes em busca de seus sonhos. Um pela Liga, outro na final da Copa do Rei e, tudo indica, numa épica semi-final da Champions League. E não se iluda o leitor. A prosa dos merengues pode ser o pesadelo, o cisne negro da noite blaugrana. Mourinho e seus comandados farão de tudo para serem os monstros do sono da razão de Goya na vida do Barcelona, capaz de fazer derretida no tempo, toda a sua poesia, como numa tela de Dalí. Por Eduardo Petta


