Quando eu era menino sonhava em ser jogador de futebol. Também queria ser narrador. Passava horas a jogar botão sozinho narrando os gols. Na época (virada dos anos 70-80) o estilo de narrar que mais me influenciava era o do José Silvério da rádio Jovem Pan. Eu amava quando o jogo ia começar e eles tocavam aquela musiquinha: “eu gosto é de futebol. E os meus amigos...estão no futebol. Futebol é com a Jovem Pan e é lá que eu estou também”. Também gostava de cantar na hora do gol o jingle: “é gol. que felicidade. é gol. e o meu time é a alegria da cidade”. E o Silvério então soletrava a primeira sílaba do nome do jogador algumas vezes para então soltar o nome inteiro, algo como: “Jó, Jó, Jó....Jorginho” e completava “é dele a camisa número 10”. E depois disparava para o goleiro um: “e agora Neneca?” e ligava um som de torcida: “vai buscar” (a voz ecoava). “Tá lá, no fundo da rede de Neneca”. Dava o replay, descrevia o gol e chamava o repórter. “ E aí Vanderlei, o que é que só você viu”. E lá vinha o Vanderlei e o seu olhar de beira de campo, depois o comentarista, e o jogo seguia, os ouvidos grudados no rádio da caravan de papai. Na minha mesa de botão esse mundo era transportado. Tinha sempre na ponta da língua a escalação dos principais times do Brasil (naquela época não mudava tanto) e os que eu não sabia, estavam num fichário do futebol cards, as grandes figurinhas que vinham em pacotinhos de chicletes gigantes. Tive a coleção quase completa, rapelando os meus colegas batendo bafo na saída do colégio São Luís - habilidade adquirida nas horas e horas que esperava minha mãe, sempre atrasada, me buscar. Quando eu era menino, se não estava dormindo, estava pensando (ou jogando) futebol. Foi aliás, assim que aprendi a ler, soletrando as manchetes dos diários esportivos todos os dias no café da manhã. E assim que aprendi a gostar de jornal e um dia virei jornalista. Foi então que aos 40 anos de idade e quinze de profissão, durante a Copa do Mundo de 2010, realizei que era hora de sair do armário. De colocar minha pena pra escrever sobre a bola. Unir essas duas paixões que movem a minha vida. E deixar fluir aquilo que sinto sobre futebol.
Vou adorar dividir este espaço de letras com você que, assim como eu, cresceu gostando de futebol.
Petta, essa de "o que eh que vc viu" nao era o Silverio nao. Isso era o Silvio Luis falando pro Ely Coimbra e pro Flavio Prado. Abs, Marcelo Break
ResponderExcluirPetta,
ResponderExcluirParabéns pelo blog. Como vc, era e ainda sou fã do Silvério.
Apenas para constar: a música de abertura da transmissão da Jovem Pan era outra.
'Vai começar o jogo, só eu tenho um guarda chuva, adivinha quem vai se molhar...', e por ai vai. Essa que vc se lembra tocava no meio da partida, normalmente no início do 2o tempo.
A música do gol não era um jingle, mas sim um trecho de uma música do Trio Esperança (como curiosidade, o gol que gerava a 'felicidade' era do Flamengo!!).
E, por fim, o Break tem razão: quem repetia a primeira sílaba do nome, falava 'é dele a camisa número 10' e 'o que é que só vc viu' era o Silvio Luiz.
Bons tempos!
Abs